A cozinha como metáfora:o ato culinário e seus horizontes

By Monday, August 26, 2013 Permalink 0
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A COZINHA COMO METÁFORA: O ATO CULINÁRIO E SEUS HORIZONTES

by Betina Mariante Cardoso

English translation coming soon

Minha cozinha

Sou eu, Betina, na minha cozinha de hoje!

E por falar em subjetividade, a partir da minha escrita sobre a obra de M.F.K. Fisher, “The Gastronomical Me”…Você já pensou na cozinha como   metáfora? Pois a reflexão de hoje  é sobre o ato culinário e  seus horizontes,  sua subjetividade… Deste  universo, nasceu minha  escrita  de cozinha, em começo de 2012,   pelo meu desejo de compartilhar  as epopeias criativas de forno-e-  fogão. Não apenas as receitas,  mas toda a riqueza que a  culinária pode produzir em  nosso mundo interno, do  autoconhecimento à percepção  de aptidões, anseios,  sensibilidade e tantas outras  riquezas. Assim, surgiram meu blog Serendipity in Cucina, em  março, e meu livro, nove meses  depois. No  entanto, esta história tem início  há trinta anos atrás, lá na minha infância.

Explico.

Para mim, a cozinha sempre foi um território mágico, um espaço de descobertas, de experiências, de sabores, de liberdade. Quando éramos crianças, meu irmão e eu fazíamos o ‘bolo inventado’, onde tudo era possível na elaboração da massa do bolo, estimulados e supervisionados pela mãe. Aprendíamos a sentir o efeito dos ingredientes na textura da preparação, a conhecer os aromas e cores que cada etapa assumia, a viver nossa criatividade de modo lúdico, livre e, sem dúvida, cauteloso nas tarefas que só os adultos poderiam executar. Espiávamos o bolo crescendo no forno, sentíamos o cheiro inundando a cozinha, e entendíamos que o resultado era produto de nossas ideias, possibilitado pela expertise da mãe. Preparar receitas, conhecer elementos e reações químicas aplicados, vivenciar a diversão ímpar de mexer a massa e de vê-la crescer no forno, tudo isso era viver a culinária como objeto de nossa primeira autoria. E, além de tudo, saboreávamos o bolo no lanche da tarde!

Com sete ou oito anos, disse para a Vó Léia que desejava fazer um bolo de Natal, de maçã com castanha-do-pará, recheado e coberto com doce de leite e castanhas raladas. Nem imagino de onde tirei esta ideia, e nem mesmo porque escolhi esses ingredientes. Cozinheira de mão cheia, ela me deu um dos maiores presentes que eu poderia ganhar naquele Natal: a confiança na minha ideia e os ensinamentos práticos de como realizá-la – explicou-me tudo, tim-tim por tim-tim, deixando que eu mesma fizesse cada passo, exceto quando a atividade envolvesse cortar alimentos ou mexer no forno. Ali, pude descobrir que poderia inventar uma receita, mas isso envolvia uma nova etapa: descobrir que as medidas devem ser seguidas à risca, que há uma metodologia para o desenvolvimento da criação, que certos cuidados são essenciais, e tantas outras coisas que sei hoje sobre as receitas culinárias. Inventar ganhava um método.

Entretanto, o mais importante que aquela ocasião me proporcionou foi saber que eu poderia, a partir de um desejo, elaborar sua realização através de passos definidos, prestando atenção em cada detalhe de cada etapa. Então, a autora daquela torta seria eu mesma, da teoria à prática,  com supervisão cuidadosa dos adultos. Claro que minha compreensão, na época, estava muito longe desta complexidade toda, mas me lembro de ter sentido alegria, muita alegria, e um orgulho por ter criado a receita. Era como o prazer de abrir um presente de Natal. Aquela experiência ficou profundamente marcada em mim, assim como a prática do bolo inventado. Criatividade e método eram atributos que começavam a me despertar encanto. Repeti o ‘como-se-faz’ da torta de maçã com castanha-do-pará nos outros Natais, seguindo os registros da primeira experiência. Com isto, verifiquei que o método, seguido à risca e com atenção aos passos do processo, resultava muito semelhante entre uma e outra vez. Acredito mesmo que tenha nascido ali meu prazer em inventar receitas e repeti-las.

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A lasanha feita por minha mãe, desde nossa infância…

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Seguiu-se então o aprendizado  de preparar receitas já  conhecidas,  como a da Nega  Maluca, sempre sob supervisão.  E, como toda a  família    era  adepta da prática culinária, as  oportunidades de  observação e  de    treinamento eram  múltiplas, e o encanto era  crescente. Via minha mãe    fazendo  a lasanha anotada em  seu caderno  de receitas – feito à  mão  por  uma tia –, camada por  camada da  lasanha, tudo passo a  passo. E fui    gostando cada vez  mais de ler  cadernos de  receita:  dos ingredientes ao  modo de  fazer, da leitura das   receitas  escritas à mão ao exercício mágico do preparo dos quitutes.  Além disso, via o entusiasmo coletivo da mesa da cozinha nas vésperas  de festas, principalmente nos Natais, em que a mãe, as avós e as tias picavam oleaginosas, preparavam sabores e compartilhavam a alegria festiva de produzir os cardápios de nossa história. Aquelas reuniões de cozinha pareciam ser a coisa mais divertida do mundo, um lugar em que se reuniam o prazer e a prática de todas as gerações, em uma vivência contagiante. Ajudando nos preparativos, observando a força de cada uma das criações próprias da mãe, da Vó Léia, da Vó Alda – cuja ambrosia ensolarava qualquer mesa de doces – e das minhas tias, descobri que cada uma tinha suas especialidades, suas preferências por esta ou aquela receita e a habilidade fervorosa na execução das gostosuras.

Bom… Se há prazer culinário ligado ao DNA, então recebi de todos os ascendentes da árvore genealógica, pois a sensação de prazer na execução de um doce, de um acepipe, ou na mera leitura de um livro de receitas parece atávico em mim. Na quinta série, eu e duas amigas executamos a receita do quindim, e parti para a ousada tentativa de atravessar a fronteira para o quindão: trinta e dois ovos, dois quilos de açúcar, a vibração amarelo-ouro pela coragem de expandir horizontes no receituário de cozinha. Novo atributo, a coragem.

Meu pai, exímio na elaboração da paella, demonstrava compenetração máxima no preparo do prato.  Expertise, partilha, criatividade, método, compenetração, prazer. A lista de atributos aumentava.

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A Paella feita pelo meu pai: receita vibrante!!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Aos doze anos, foi a vez dos chocolates. Decidi fazer o presente de Páscoa do meu irmão, “pivô” daquilo que se tornou a minha especialidade. A Vó Léia me acompanhou no primeiro curso, de noções básicas, em um centro comercial da cidade, de que tenho até hoje a apostila. Eu adorava pintar detalhadamente os chocolates, fazendo daquilo minha arte. Com o passar dos anos, criava mais e mais receitas, dos chocolates, de bolos, de quitutes, permitindo-me a criatividade como elemento essencial do fazer culinário. Está certo que eu não sabia destes aspectos tão subjetivos, mas todo este processo era assimilado, paulatinamente, no meu próprio processo criativo. A cozinha  tornou-se  meu “espaço de liberdade”, o lugar onde a criação imaginativa, artística, ousada, era o nascedouro de meu prazer em ter ideias e em vê-las executadas. E novos atributos se enfileiravam no meu aprendizado: detalhamento, arte, liberdade. Sempre consciente do papel dos adultos na realização de determinadas etapas da culinária.

chocolates coloridinhos

Chocolates para degustação, 1988: começando…

 

Tive a fase de copiar receitas de livros antigos para meu caderno, e fui gostando dos termos, dos títulos, das características, da elegância, do estilo. Gostava de escrita, gostava de culinária, e então o que poderia ser melhor do que me deleitar com a tarefa de registrar, com esmero, receitas em meu caderno de cozinha? Daí para o desafio de escrever minhas  receitas inventadas  foi um pulo.

Bolo de Melado da Anilda

Meu caderno de cozinha, manuscrito e com ‘manchas de memórias’.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

De viagens, amores, amizades e festejos, a coleção de criações e prazeres na cozinha se ampliava. O fazer culinário era sempre alinhavado às minhas experiências de vida. Os atributos que aprendi, desde a infância, eram associados com outros ensinamentos e percepções, e eu descobria,  pouco a pouco, como a cozinha se tornava parte intrínseca do meu modo de ser. Posso garantir que meus principais aprendizados foram a  permissão (e a entrega) para a criatividade, a liberdade de expressão e a persistência na realização das ideias; estas características, uma vez incorporadas, tornaram-se parte de quem eu sou hoje e de como vivencio as situações cotidianas – e as extraordinárias – na minha história.

Reuniões festivas em casa, visitas a amigos, reuniões de equipe no período da formação profissional, viagens e descobertas intimistas resultaram no desejo de compilar minhas reflexões e os quitutes que fazem parte de meus trajetos. E há também o desejo de criar novas histórias, a partir de receitas criadas ou de ‘releituras’ e adaptações, por isto o blog segue em atividade.

Minha intenção mais profunda é a de partilhar experiências e emoções com  amigos  passados, presentes e futuros, com minha família, com meu amor e com as crianças que fazem parte da minha vida. Há um propósito, também, de colocar uma lupa no processo de criação que envolve a culinária, por este traduzir, in vivo, o que a execução das receitas representa in vitro. Explicando: busco compreender o papel das reações químicas, físicas e fisiológicas, próprias do fazer culinário, em minha vida.

Sempre gostei de criar receitas, e fui criando ao longo de acontecimentos significativos para mim. Acredito de fato que o preparo de uma receita, considerando o exercício dos nossos cinco sentidos, carimbe impressões ao acontecimento, como se cada situação  especial tivesse um sabor, uma textura, um aroma, uma melodia, uma apresentação visual. Nada disso foi intencional, mas hoje, olhando para trás, vejo quantas de minhas memórias têm receitas próprias.

Muitas pessoas importantes para mim estão nestes escritos, muitos sabores e saberes que fazem parte de minhas vivências estão registrados em meus textos, fixados pela memória das impressões sensoriais e afetivas. Desenvolvo meu trabalho de escrita culinária porque, cá e lá, me pedem as receitas, mas, principalmente, porque desejo compartilhar meu aprendizado contínuo de tudo o que envolve a cozinha em sua subjetividade.

E acredito nisto: ato culinário é, ao mesmo tempo, uma experiência individual  e coletiva, uma oportunidade de autoconhecimento, de entrega a mim mesma e, simultaneamente, de partilha, de doação, de    expressão de afetos positivos. Exercício contínuo de liberdade e de disciplina, de firmeza e de flexibilidade, de gratificação e de tolerância às frustrações. De foco e de atenção no presente em cada ato, pondo em ação cada um dos nossos cinco sentidos. Exercício de resiliência, a cada receita. Sobretudo, o ato culinário representa uma das circunstâncias mais propícias para experimentar singular e plural, para nos  aproximar de nós mesmos e  daqueles a quem admiramos,  amamos e que são parte de nossa  história.

Descobri que criar minhas receitas e seguir estritamente receitas de livros ou de cadernos são exercícios diversos, mas ambos imprescindíveis no estabelecimento de características pessoais, de atributos aplicáveis dentro e fora do ambiente culinário. Assim, a minha escrita tem o propósito de convidar os leitores-comensais aos meus textos de forno-e-fogão; mais ainda,  o propósito é o de compartilhar o laboratório de vida que a cozinha sempre foi para mim. Acredito, por experiência própria, que o fazer culinário é fonte de boas doses de felicidade em nossa vida rotineira.

Fazendo Scones...

Fazendo Scones…

...E ensinando Scones ao meu sobrinho de seis anos...

…E ensinando Scones ao meu sobrinho de seis anos…

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Obrigada pela leitura do meu  “A cozinha como metáfora: o fazer culinário e seus horizontes…”! Espero que você saboreie nossas ‘conversas’! Caminhe à vontade pela leitura de meus textos  e receitas, dando seu ‘toque’ criativo aos preparos ou seguindo o rumo de novas descobertas.  E que tal começar um novo caderno de cozinha, escrito à mão, com suas receitas, esboços, histórias e impressões?

Bom proveito!

Com afeto,

Betina MC

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Scones com o sobrinho: a vivência partilhada!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Sobre mim, Betina Mariante Cardoso

Sou Betina Mariante Cardoso, brasileira, trinta e sete anos. Nasci e moro  em Porto Alegre, no Sul do Brasil, cidade que amo de coração e onde  vivencio o apego, o calor da família e a constância, virtudes necessárias na  minha vida. Sou médica psiquiatra e psicoterapeuta. Minha segunda atividade profissional é como proprietária de uma pequena editora, a Casa Editorial Luminara, ligação entre  trabalho e espaço de liberdade. No tempo livre, meu hobby principal é a culinária, desde a infância.  Escrever, curiosar, ler, fazer colagens, blogar, viajar e  fotografar são também experiências prazerosas para mim, com altas doses de felicidade.

Espero você nos próximos textos!

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